quarta-feira, 2 de novembro de 2011

ORQUÍDEAS E LÍRIOS DO CAMPO

Sinto um vazio dentro do meu peito... Por mais que eu tente... Ainda não consigo acreditar no que aconteceu comigo. Ainda bem que meus fantasmas estão aqui. Engraçado, eu que nunca acreditei no sobrenatural... Agora vejo quase que nitidamente meus 3 fantasmas protetores. Graças a eles fui salva, salva de terminar como esse moribundo deitado nesse leito a minha frente. Tento me despir de todo rancor que sinto... Mas não sei se conseguirei. Meu coração está cheio de ódio. Esse homem que está morrendo a minha frente... Está levando parte de mim junto com ele. Sinto que parte de mim também está morrendo. O meu amor por ele era tão imenso... Como pude acreditar nele? Porque ficamos cegos com o amor? Como não consegui perceber toda a trama orquestrada por esse moribundo? Olho para esse infeliz com lágrimas falsas... E não imagino que “ isso”, foi um ser humano algum dia. Tenho vontade de arrancar meu coração por ter me enganado! Fui iludida! Como dói! Como dói a dor da traição! Não sei se terei forças para continuar a viver.
O que me conforta é a presença dos meus fantasmas protetores. Sinto a presença deles e quase posso vê-los nesse momento tão doloroso da minha vida. Nem acredito que já tive muito medo desses fantasmas. Lembro a primeira vez que os vi. Isso foi há 3 anos atrás. Os vi dessa maneira: Próximo a entrada da minha casa, eles estavam sempre em pé. Todos de Túnica branca. Eram 3 fantasmas descalços. Dois senhores e uma senhora. Não os via claramente. Via reflexos rápidos. Vi na primeira vez que seguravam flores. Senti muito medo na época. Não entendia porque eles apareciam para mim. As aparições continuaram, agora podia ouvir um sussurro lento. Uma palavra e... Em seguida... Orquídeas e os lírios do campo. Não conseguia entender a primeira palavra. Tudo era tão rápido... O medo tomava conta de mim... Acabava sempre esquecendo dessas aparições. Eu estava num momento tão maravilhoso da minha vida que não dei muita atenção à essas coisas. Eu estava muito feliz. Havia encontrado meu grande amor! Meu Deus, como eu estava feliz!
Voltarei um pouco mais ao passado para explicar esse acontecimento: Eu era uma moça pobre. Meu sonho era ser rica e freqüentar a alta sociedade. Minha ambição era ser uma socialite. Tracei planos... Não medi esforços para chegar onde eu cheguei. Lembro das minhas amigas... Das minhas verdadeiras amigas que deixei pra trás por causa da minha ambição. Lembro da minha melhor amiga reclamar que não poderia mais sair comigo porque eu so queria freqüentar lugares caros. Gastava todo o meu dinheiro em lugares caros para tentar encontrar um marido rico que realizasse meus sonhos. Fui deixando para trás muitas pessoas queridas. Elas não faziam parte do mundo em que eu queria tanto viver. Alguns supostos amores também ficaram para trás. Não queria mais contatos com pessoas pobres. Fui me infiltrando na alta sociedade. Várias atividades me aproximaram do mundo que eu almejava. Minha beleza ajudou. Fazia companhia a executivos... Freqüentava lugares caríssimos... Coquetéis... As oportunidades foram aparecendo... Fui abraçando tudo que vinha a minha frente. Namoros... Muitos namoros apenas por interesse. Não me prostitui, mas estive bem próximo disso. Eu sempre estava a procura de um homem rico. Jogadores de futebol... Artistas... Atacava por todos os lados! Não queria perder nenhuma oportunidade. Eu era articulosa... Estava o tempo todo tramando minha escalada a high society.
Depois de muita procura e muita luta encontrei o meu anjo que iria realizar meus sonhos. Casei com um senhor de idade avançada. Ele era extremamente rico e bem infiltrado na alta sociedade. Era influente, tinha Prestígio e notoriedade. Em pouquíssimo tempo me tornei uma das mais respeitadas socialites do Rio de Janeiro. “ Tudo” que planejei deu certo. Nem acreditava que havia chegado ali! De pobretona a rica e respeitada socialite! Festas... Coquetéis... Os convites vinham de todos os lados! Contato com artistas... Parecia um sonho!
Durante alguns anos aquele glamour me fascinava. A granfinada ajoelhava aos meus pés. Eu era adorada... Bajulada...
Aos poucos fui perdendo o entusiasmo... Já não gostava daquele mundo. Um pouco mais atenta... Já percebia a falsidade da maioria das pessoas a minha volta. Não gostavam de mim, eles gostavam da posição que eu e meu marido representávamos. Queriam apenas notoriedade. Já não tinha mais paciência para ouvir as frases típicas: Minha empregada... Blablabla; Meu carro último modelo... Blablabla; Viajarei para New York... Só uso marca tal... Outra muito sem graça, ela sempre usava palavras estranhas. Acho que ela ficava o dia todo pesquisando num dicionário. Rsrs Enfim, não tinha mais paciência para ouvir assuntos fúteis. Claro que nem todos eram assim, conheço muitas pessoas ricas que não se importam com futilidades.
Meu marido já estava ficando velho demais. A vida sexual... Nunca foi agradável. Mas... Esse era meu sacrifício. Afinal, não tinha planos para o amor. Na minha ambição não estava incluído o amor. Ele, meu esposo, esperto... Vivido... Vendo a minha juventude passar, sugeriu sutilmente algumas vezes que eu procurasse um profissional. Ele se desculpava por estar velho demais. Era uma pessoa generosa e maravilhosa. Ele me perguntar no começo da relação se eu o amava. Eu respondi que não. Expliquei o que queria. Ele gostou da minha sinceridade. Ele disse que fui a primeira a ser honesta com ele. O mordomo... Que figura engraçada. Rsrs Desde que fui morar na mansão... O mordomo sempre desconfiado! Rsrs Com o tempo ele percebeu que era boa pessoa... Até me ajudava num juramento que fiz antes de tudo isso. Jurei que quem realizasse o meu desejo, sempre estaria em primeiro lugar. Explico: O primeiro copo de vinho era sempre do meu marido. Essa era uma forma de eu pagar por ele realizar meu desejo. Meu marido as vezes cozinhava para mim, fazia pratos maravilhosos. Quando ele colocava meu prato, para que eu fosse a primeira a comer... O mordomo trocava os pratos a meu pedido. Queria que ele, meu marido fosse sempre o primeiro. E assim, sem que ele soubesse, o mordomo sempre trocava de lugar os copos... Os pratos.. As taças... Acho que no fundo era uma desculpa por não amá-lo. Era uma forma de me sentir bem com minha consciência.
Passados alguns anos... Ele acabou falecendo. Já era esperado. Ele estava muito velho... Adoentado... Eu estava sozinha. Procurei as antigas amigas, mas elas não quiseram aproximar. Disseram que já tinham outras amigas. Disseram que eu fiz minhas escolhas e que eu fizesse bom proveito do dinheiro que herdei. Afinal, eu era milionária. Milionária e solitária. Meus pais morreram há muito tempo. Uma Irmã... Também não quis amizade. Fiquei realmente sozinha. O que adianta ser milionária e estar sozinha? Afinal, para serve o dinheiro? Amizades falsas, eu não queria mais.
Sem ter o que fazer... Pedia ao meu motorista para me levar a qualquer lugar... Sem rumo... Gostava de ir sempre em lugares onde eu pudesse ver flores. Adoro flores.
Passaram-se dois anos. O mordomo... Era um amor. Era minha base. Ele... Sempre profissional. Cuidava de mim muito bem. Ele entendia qualquer olhar... Qualquer movimento que eu fazia. Ele me conhecia muito bem. Acho que o falecido pediu a ele para cuidar de mim. Dias mais tarde... Apareceu em minha porta um buquê de orquídeas. Depois... Um buquê de lírios do campo. Um admirador. Ele sabia que eram minhas preferidas. Ninguém tinha acesso a minha casa. Mas logo fiquei desconfiada do motorista. Ele me via admirando orquídeas e lírios do campo sempre que saiamos. Não havia reparado nele. Ele era bonito, jovem... Agradável. Ele trabalhava com meu marido há algum tempo. Começamos a conversar. Fomos nos entendendo aos poucos. Eu estava sozinha, não tinha que dar satisfação a ninguém. Nossa primeira vez... Foi algo inusitado! Jamais esquecerei! Ele me levou a uma plantação de girassóis. Corremos dentro da plantação como adolescentes! Rsrs E no meio da plantação... Onde ninguém podia nos ver... Ele gentilmente forrou o chão com sua roupa e começamos a fazer amor ali mesmo! Meu Deus!! A certa altura eu vi todas flores dos girassóis voarem para o céu como que numa explosão! Todos as flores dos girassóis estava voando para o céu! Não se conseguia distinguir os girassóis do sol. Já havia esquecido o que significava orgasmo. A última vez que tive um foi há.... Nem lembro! Estava feliz. Com muita freqüência ele me presenteava com os buquês de orquídeas e lírios do campo. Cada semana, orquídeas e lírios diferentes. Em um ano de namoro decidimos que era hora de casar. Casamos. Parecia um sonho... Que homem gentil... Cuidadoso... Atencioso... Nem pensei que merecia tanto.
Estava feliz e ao mesmo tempo intrigada com as visões que intensificaram após o casamento. Sempre via 3 pessoas próxima a porta da minha casa. Reflexos rápidos... Como já disse antes... Eles ficavam imóveis... Seguravam flores. Agora já podia entender muito bem o sussurro. Sobre... As orquídeas e os lírios do campo. Sempre que os via também ouvia um sussurro. Agora já entendia a primeira palavra: “ Cuidado com as orquídeas e os lírios do campo.” Acho que era isso. Talvez não. Talvez eu tivesse entendido errado. Eu pensava: O que tem de errado com as flores? Nada! Besteira minha. Achava que estava imaginando coisas. Acabava sempre deixando para de lado as aparições.
Meu amor fazia pratos maravilhosos. Fazia questão de preparar meu prato primeiro. Logo depois ele colocava o prato dele a mesa. Eu discretamente piscava para o mordomo, e num descuido o mordomo trocava os pratos. Assim era com as taças... Frutas que me dava... Sucos... Em tudo ele era o primeiro. Era a maneira de expressar minha felicidade. Esse era o meu segredo que compartilhava com meu fiel e adorado mordomo.
Umas 4 vezes por semana meu amor me trazia orquídeas e lírios do campo. Um buquê de orquídeas, apenas orquídeas na segunda- feira. Na quarta-feira, lírios do campo. Sexta-feira, outro tipo orquídea. Sábado, orquídeas e lírios do campo juntos. Ele levava a sério essa combinação. Dois anos... E o mesmo ritual das flores! Era incrível, ele nunca esquecia a combinação!
Com dois anos e meio de casamento... Meu amor começou a ter problemas de saúde. Sempre aparecia com algum problema de saúde. A cada dia ele ficava mais debilitado. Tentamos os melhores médicos e o problema persistia. Os médicos não conseguiam detectar a causa. Seu sistema imunológico estava sempre baixo. Ele foi definhando... Definhando... Eu sofria... Me sentia impotente... Não podia fazer nada! E quando fomos a última vez ao hospital... O médico me deu a triste notícia: disse que em poucos dias ele iria morrer. Ele quase não conseguia falar. Estava ali, moribundo naquela cama de hospital... Estava vendo meu amor escapar por minhas mãos. Meu coração estava apertado.
No dia seguinte... Ele estava morrendo. Era questão de horas, disse o médico. Meu mordomo sempre me apoiando... Ainda no hospital, meu mordomo me chamou para um canto e me mostrou alguns vídeos no seu celular. Me mostrou o homem que eu amava... Colocando veneno na minha comida! Meu falecido marido havia colocado câmaras escondidas pela casa. Apenas o meu mordomo sabia. Todo mês meu mordomo retirava as gravações e as guardavam. Segundo meu mordomo, ele nunca se preocupou em vê-las. Sempre achou que eu uma neura do seu antigo patrão que tinha mania de perseguição. O mordomo disse que ficou desconfiado logo que meu amor começou a ficar doente. Disse que os venenos eram colocados segundas-feiras, quartas –feiras, sextas e sábados. Eram as datas que constava nas gravações. Eu? Eu entendia muito bem o porquê desses dias. Ele me dava flores e ao mesmo tempo tentava me envenenar. O incrível: Ele não conseguiu me envenenar porque os pratos, taças, copos, frutas; sobremesas... Eram sempre trocados! Meu Deus! Me livrei da morte! Esse monstro que está ai, morrendo nessa cama... Estava tentando me assassinar! Ele queria minha fortuna! O tiro saiu pela culatra. Ele acabou envenenando a se próprio! Meu Deus! Inacreditável! Mesmo ficando doente... Ele não parava de tentar me envenenar! Pelas gravações... Via-se que eram diferentes tipos de venenos. Eram doses homeopáticas. Difícil serem identificadas. Detergente; água sanitária;veneno de rato; de baratas... Meu Deus, ele tentava me matar a todo custo! Nas gravações, podíamos ver o rótulo dos vidros de venenos enquanto ele preparava as doses diluindo em água. cianureto; estricnina; Sarin; ricina; toxina diftérica; shiga toxina; toxina tetânica; toxina botulínico. Eu não teria a mínima chance! Era morte certa!
Meu mordomo me conforta nesse momento de desespero. Meu coração parece que vai explodir! Meus fantasmas... Estão próximos... Na verdade são minha mãe, meu pai e meu falecido marido. Eles tentaram me avisar. Não dei atenção.
O olhar do moribundo entende que eu descobri tudo. Ele sussura pedindo perdão. Eu e uma monte de lágrimas... Dizemos não. Não o perdôo. Se houver justiça divina... Você pagará! Sua morte é como um câncer que está morrendo... Sendo curado.... Sendo extraído do meu corpo!
Nesse momento ouço o seu último suspiro. O infeliz morreu. Nem quero olhar para trás. Ele merece todo meu desprezo.

Flores e venenos da vida.

(história fictícia, qualquer semelhança é mera coincidência.// Obs.: Tem alguns conflitos com passado e presente. Tenho pressa em publicar. Farei correções depois.)

Escrito por Heliomar Melo

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