Um lindo buquê de rosas vermelhas estava em minhas mãos ... Quem estava me dando as rosas... Com certeza não sabia... Não sabia que rosas vermelhas me faz sofrer. Quem as vendeu teve todo o cuidado de enfeita -las com gotículas de água. Meus olhos adentraram no orvalho daquelas rosas que estavam nas minhas mãos, me levando a um passado distante do qual eu queria esquecer.
Eu era apenas mais uma menina no sertão nordestino. Aquele longo período de seca nos castigava. Quantas e quantas vezes perguntei a Deus porque tínhamos que sofrer tanto! Que mal fizemos? Meu grande sonho era ir embora! Ir para um lugar e viver com um mínimo de dignidade. Nenhum ser humano merece tanto sofrimento.
Minha mãe fazia serviços autônomos numa fazenda um pouco distante da nossa casa. O dinheiro não era suficiente para as despesas. Ela era um pouco amarga... Era sofrida...
Com a morte do meu pai... Ela teve que sustentar a mim e minha irmã sozinha. Várias vezes comíamos apenas palmas! Isso mesmo, comíamos a comida dos animais! Também fazíamos farofa de formiga. Tirávamos a parte de trás da formiga e fazíamos uma deliciosa farofa.
Dois anos após a morte de papai, mamãe resolve se casar novamente. Ela não conseguia nos criar sozinha. Ela dizia que precisava de alguém para ajudá- la. Meu padrasto entrou na nossa casa e tudo parecia tranqüilo. Ele me deu de presente uma roseira linda! A plantei num lugar especial ao lado da casa. Cuidei daquela roseira como se fosse minha vida! Aquela roseira, para mim, era um símbolo de esperança... Era meu elo com algo maravilhoso que iria me acontecer! Era dessa maneira que eu via a roseira. Eu conversava com cada rosa! Até dei nome para algumas delas.rsrs Acabei desistindo de chamá-las pelo nome, eram tantas... Tantas rosas... Ah... Eu me sentia tão rica... Tão cheia de vida ... Olhando aquelas rosas... Eu imaginava uma casa chique cheia daquelas rosas! Na minha visão de menina sonhadora, eu via uma roseira em cada casa! Na minha mente, nas cidades longe do nordeste de secas, todas as casas tinham roseiras na frente! Alias.. Todas as praças... Ruas... Rosas, rosas... Em todo lugar!
Já se passaram 5 anos desde que meu padrasto veio morar com minha mãe. As coisas agora... Não estão tão boas como antes. Ele bate na minha mãe. Ele bate nela por qualquer motivo. E minha Mãe... Acaba nos batendo também por qualquer motivo.
Ele bebe muito. O dinheiro que ele ganha é quase todo para beber. Nossa comida está cada dia mais escassa. Ele joga na nossa cara o tempo todo que nos criou! Que deu comida a filhos dos outros! Tive que enfrentá-lo algumas vezes quando ele tentava bater na minha irmã. Ele apenas ameaçava me bater. Eu percebia que alguma coisa o impedia de me bater. Não entendia o que poderia ser.
As surras na minha mãe não cessavam. Tinha dias que ele ameaçava matar a todos! Minha mãe queria terminar o casamento, mas ele não queria! Ele debochava da minha mãe o tempo todo. Não tinha um mínimo de respeito por ela! Muitas vezes éramos obrigadas a correr para fora da casa de madrugada para que ele não nos machucasse. Ele chegava muito bravo de madrugada. Estávamos sozinhas! A cidade mais próximas ficava longe! Estávamos isoladas! Os poucos vizinhos que tínhamos... Foram para a cidade de São Paulo.
Por muitas vezes ele saía correndo atrás de mim para me bater. Eu me escondia atrás da minha roseira. Por algum motivo ele respeitava a roseira. Lembro que ele ficava horas me observando enquanto eu cuidava da roseira. Outras vezes o ví conferindo o tamanho da roseira, das rosas... Eu achava aquilo tão estranho... Ele também admirava a roseira. Começo a achar que não foi coincidência ele ter me dado a roseira de presente. Não sabia que ele também era fascinado pela roseira. Algo enigmático nos envolvia com a roseira. Minha mãe comentou algumas vezes que achava estranho a nossa adoração pela roseira.
Certo dia, minha mãe foi trabalhar. Minha irmã foi com ela. Meu padrasto estava em casa. Como sempre, bêbado. Ele aproximou com um olhar estranho, me pediu... Me mandou buscar algumas rosas. Recomendou que eu colhesse apenas as mais bonitas. Meio desconfiada fui la e cuidadosamente, colhí as rosas mais bonitas. Acreditava que as rosas acalmaria o coração de gelo daquele homem. Pensei que ele queria dar rosas para minha mãe. Afinal, ele fazia tanto mal a ela ultimamente...
Ingenuamente lhe entreguei o ramalhete de rosas. Ele gesticulou que eu ficasse com as flores. Nesse momento ele me mostrou uma faca. Acenou para eu ir ao quarto. Me mandou deitar na cama da minha mãe. Me ameaçou. Disse que se eu não deixasse acontecer (....) ele mataria todas nós! E que se eu contasse para minha mãe, ele também nos mataria! O olhar dele... Era... Assustador! Segurei aquele ramalhete de rosas com tanta força... Tinha tanto medo... As lágrimas.. Desciam... Desciam sem parar! Eu implorava! Eu pedia pelo amor de Deus para ele não fazer aquilo! Ele gritava que aquela era a hora! A roseira estava pronta! Ele disse que foi dessa mesma maneira com outras meninas! Ele veio para cima de mim... Gritei! Gritei!! Mas ele não parava! Ví todas as rosas da minha roseira despedaçadas!
Quando aquilo terminou... Ele repetiu que se eu contasse para minha mãe, ele mataria todas nós! Em seguida ele me expulsou do quarto. La fora, perto da roseira, eu arrancava as pétalas das rosas do ramalhete que ainda estava na minha mão. As lágrimas caíam nas rosas vermelhas. Meu mundo estava destruído!
Dias mais tarde, ele pediu de novo mais rosas. Disse que se eu não trouxesse rosas, ele iria bater na minha mãe. Ele repetia: Quanto mais rosas... Menos sua mãe apanha!
Tentei destruir a roseira. Ele percebeu e me bateu. Ele demorou um longo período sem... Sem... Me “incomodar”. Disse que estava esperando a roseira ficar viçosa novamente.
Minha mãe não percebia nada. Eu tentava chamar sua atenção... Eu quebrava copos... Eu deixava as coisas caírem no chão ... Eu arrancava pétalas das rosas na sua frente... Eu queria que ela percebesse que algo não estava bem! Mas ela não percebia! Ela chegava cansada do trabalho... O meu padrasto sempre brigando com ela...
Mais um dia no inferno. Era quase noite. Ele queria flores novamente. Relutei. Mas ele ameaçou de novo! Fui e Colhí as rosas vermelhas. Fui para o quarto. Quando tudo acontecia... Minha mãe entrou gritando! Me xingou dos piores nomes! Ouví as piores barbaridades de toda minha vida! Aquele homem disse para mãe que eu o seduzí! Eu falei que ele me obrigou! Mas minha mãe não acreditou em mim! Ela me pegou pelos cabelos, me arrastou até a roseira , colheu galhos da roseira e me surrou! Meu corpo ficou marcado com os espinhos da roseira! Ela me expulsou de casa.
Aos prantos e sangrando, fiquei olhando a roseira. Levantei e comecei a destruí -la! Arranquei cada galho.. Cada raiz! Cavei o chão e retirei todos os vestígios da roseira! A destruí ! Depois queimei tudo!
Minha irmã me acompanhou até a autoestrada. Despedi dela e prometí que viria buscá-la. Peguei carona e vim para o Rio de janeiro.
Tive que morar nas ruas por algum tempo. Comí restos de lixo de restaurantes de Copacabana. Juntei–me com alguns mendigos. As vezes dormíamos em viadutos. Outras, em calçadas em Copacabana. Já estava me tornando moça. As poucas roupas que eu tinha, eu guardava na copa das árvores. Cada um de nós tínhamos uma árvore que servia de guarda-roupas. rsrs
Propostas indecentes... Eram constantes. Mas eu não quis! A prostituição não era o caminho que eu queria seguir!
Uma amável senhora sempre conversava comigo. Sentávamos nos bancos de frente para o mar. Contei-lhe toda minha história. Ela ficou comovida e me convidou para ajudá-la nos serviços domésticos. Fui morar com ela. Ela era sozinha. Não tinha parentes. Me tratou como filha... Foi maravilho! Ela me deu estudos... Ela fez tudo para eu vencer na vida! Quando ela faleceu, veio a surpresa, ela me deixou bem de vida. Eu herdei 3 apartamentos!
Casei. Tive 3 filhos. Meu marido faleceu logo. Estou viúva há um bom tempo. Meus três filhos, Alguns amigos, minha irmã e minha mãe que eu trouxe do nordeste, também acham que eu mereço casar de novo. Não conseguí guardar a mágoa que tinha da minha mãe e fui buscá-la. Eu a perdoei. O meu padrasto, aquele desgraçado, morreu sofrendo! Sofreu muito! Disse minha mãe.
Era uma noite especial. Estávamos comemorando minha formatura. Agora me vejo nessa situação embaraçosa. Ele, meu pretendente, meu namorado, veio com esse lindo buquê de rosas vermelhas! Todos se olharam! Estavam de bocas abertas! Todos ali, naquela sala, sabiam que eu odeio rosas vermelhas! Meu pretendente estava tentando entender a situação. Gesticulava perguntando o que fez de errado. Todos estavam sem graça! O clima na sala ... Não estava bom! Meu namorado olhou nos meus olhos e viu que eu estava chorando. Ele gentilmente me perguntou se eu não gostava de rosas vermelhas. Calmamente eu enxuguei as lágrimas, erguí minha cabeça e disse : Eu Adoro Rosas Vermelhas! E todos começam a sorrir e um clima de alegria reinou no ambiente.
Todas as rosas da nossa vida....
(Comecei a ouvir a historia dessa brava mulher, achei interessante. Combimos p que ela me conta toda a historia. Sabia sobre... Ela ter sido molestada mas nao sabia por quem! Na pressa acabei criando por conta propria o seu agressor. Dias apos, ela me contou toda sua historia.Muito diferente dessa historia. Todo meu carinho a essa mulher de fibra e de bem com vida! )
Escrito por Heliomar Melo
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