quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

SENTINELAS DA ILHA

Recuperávamos da nossa grande tragédia. So restaram eu, minha esposa e meu menino mais velho. Perdemos tudo. Minha mãe, dois outros filhos , minha sogra. Toda minha família foi soterrada num desmoronamento na região serrana. Lágrimas... Não havia mais lágrimas. Todo nosso patrimônio foi por água abaixo. Naquela madrugada, tentei salva-los mas não consegui!! Fragmentos de mim... Ainda tento inutilmente juntar.
Meses depois da tragédia, estávamos recuperando. Não estava fácil morar na cidade grande. A violência era constante. Eu temia pela segurança da minha família. Morávamos num bairro muito pobre e violento do subúrbio.
Além das terríveis lembranças da tragédia daquele dia infernal, ainda era incomodado com assustadores sonhos. Quase todas as noites eu sonhava com túneis... Uma caverna.... Algo estranho acontece em uma... Espécie de caverna. Não sei o que significa o sonho, so sei que me incomoda muito! Algo maligno está presente nesses sonhos. Minha esposa tenta me acalmar dizendo que os sonhos não fazem sentido. Minha esposa aparenta uma mulher forte. Finjo que na a o vejo chorando pelos cantos da casa. As vezes paro e fico olhando ela de longe. Fico imaginando o que seria de mim se eu a tivesse perdido naquela inundação... Meu Deus, não quero nem pensar nisso! Afaste esses pensamentos de mim!!
Certo dia vi na internet um anúncio de uma casa numa ilha. Tínhamos um bom dinheiro guardado. O preço da casa estava quase pela metade! Seria uma ótima oportunidade de sairmos do tumulto e da violência da cidade grande. Conversei com minha amada. Ela ficou um pouco desconfiada por causa do preço... Mas ao mesmo tempo gostou da idéia de morar numa pequena ilha. Seria seguro para criar nosso menino. Fomos la, vimos a casa e assinamos o documento de compra e venda. Havia uma pequena clausula no documento. Algo... Como... Não vender a casa em 5 anos... Não demos muita importância. Afinal, adoramos a ilha e não tínhamos intenção de sairmos de la.
Um barco lotado saiam enquanto chegávamos. Algumas pessoas sorriam... Outras choravam... Algo me intrigava naquele barco que saia . O choro desesperado e os sorrisos... Minha atenção foi desviada para o imenso verde a minha frente. Aquela ilha parecia um sonho!! E mais, nosso barco estava cheio também. Muitas famílias também vieram morar na ilha. So havia 300 casas na ilha. Portanto, éramos os sortudos da vez! Que felicidade!!!
Os primeiros dias na ilha foram maravilhosos... Exploramos toda a ilha! O verde... Era realmente predominante. Que lugar lindo! Minha esposa... Parecia .... hummm... Parecia que ela escondia algo. Queria dizer algo... Mas eu podia perceber que se continha e calava. Meu filho acabava desviando minha atenção. Ele estava feliz e eu não queria estragar aquele momento. Enquanto brincávamos, minha amada fingia que estava feliz.
Mais um dia na ilha. Percebi que algumas coisas... Não funcionam como me falaram. O meio transporte não era muito eficiente. Seria difícil trabalhar fora da ilha. Um modesto barco não sairia todos os dias da ilha. Estávamos... Quase presos na ilha. Alguns dias mais tarde, conseguimos modestos trabalhos. Dava para pagar as despesas mínimas.
Alguns meses... E coisas estranhas aconteciam na ilha. Eu e meu menino percebemos que não havia pássaros na ilha! Como não percebi isso antes? Estava tão empolgado que não percebi isso! Mas como pode uma ilha com tanto verde não ter pássaros? Não vi nenhum animal! Apenas vi animais de estimação. Minha esposa confirmou que sentiu algo estranho desde o primeiro dia, mas, não quis falar. Ela disse que não quis estragar nossa alegria. Ela conta também de algo que acontece dentro da casa. Algo que eu também já havia percebido. No quarto da bagunça... Algo estava la. A sensação de que alguém... Ou alguma coisa nos vigiava... Era tão ... Presente! Era uma sensação muito estranha! Sempre fui religioso e nunca quis saber de certos assuntos... Sensações...
Quando mudamos, havia muitos utensílios de magia... Ritual... Não sei direito se era coisa ruim ou boa. Mas algo estava la! As vezes me sentia protegido. Outras... Não sabia explicar.
Os habitantes da ilha deviam ser alegres, mas não eram! Eu me perguntava: Que mistério havia naquela ilha? Porque aquelas pessoas cochichavam? Porque não queriam amizade? Fazíamos tudo para sermos amigos, mas eles não queriam amizade! Porque? Eu me perguntava. Com o tempo, ouvi rumores de pessoas que sumiram do nada! Ouvíamos sobre sacrifícios humanos... Monstros marinhos... Alguém os controlava. Eles temiam alguém! Quem não obedecesse as regras... Eram mortos! Quem esses amedrontados moradores temiam? Ou tudo isso eram apenas historias de pessoas simples sem contato com a civilização? Talvez isso tudo fizesse parte da cultura daquelas pessoas.
Eu e minha família sentíamos medo. Quase não havia barcos para a cidade. Estávamos presos. Praticamente presos! A clausula no contrato de compra e venda nos proibia de vender o imóvel antes 5 anos. Não dei importância a essa clausula. Não queria perder todo meu patrimônio de novo! Não podíamos sair da ilha sem nada! Como sobreviveríamos na cidade grande sem o mínimo de dinheiro para recomeçarmos nossas vidas? Realmente estávamos presos na ilha! Agora eu podia perceber que não foi coincidência a compra da casa. Algo realmente acontecia na ilha! Algo sobrenatural acontecia naquela aparente pacata ilha!
Sem saber o fazer,tentava procurar respostas. Cogitava um monte de coisas. Mas nada parecia fazer sentido. Tentei ignorar o que ouvi sobre a grande caverna. A grande caverna era um ligar proibido na ilha. Ninguém podia aproximar! Com muito esforço consegui que alguém me indicasse a localização exata da caverna, apesar da recomendação de não entrar la. Diziam que todos que entraram na caverna jamais voltaram! Diziam que um monstro habita o interior da caverna. Fui varias vezes em frente a entrada da caverna. Não tinha coragem de entrar. Tinha certeza que o segredo da ilha estava dentro daquela caverna! Algo la dentro interferia em toda ilha! Algo maligno comandava a ilha!
Naquela manhã, havia decidido que entraria na caverna. Minha amada ficou chorando. Ela pediu que eu desistisse. Mas minha intuição dizia que eu precisava entrar na caverna!
Quando entrei na caverna... lembrei dos meus sonhos! A caverna dos meus sonhos!! Incrível, era igual a caverna que via em meus sonhos!! Havia desenhos estranhos... por todo lado! Num pequeno córrego um filete de água descia em direção a saída da caverna. Do outro lado outro filete de água descia em direção ao interior da caverna. Dois córregos em direções diferentes! Fui andando por entre os dois córregos lentamente e assustado . Cheguei num grande salão. A caverna se dividia em dois túneis. Havia uma fonte entre os dois tuneis. Minha intuição dizia que eu devia ir pelo lado direito. O lado em que o córrego vinha ao meu encontro . Entrei e fui sugado com a força de um buraco negro! Meu corpo foi literalmente desfragmentado! Em segundos sentia meu corpo sendo remontado como se fosse areia! Sim, como grãos de areia! Quando me materializei, fiquei atrás de um imenso espelho e pude ver o motivo de estarmos naquela ilha. Me ví do outro lado do espelho. Sim. Por coincidência via exatamente a cena onde eu mandava matar dois de meus súditos. Na verdade, o meu antepassado era um rei impiedoso. Um rei do Egito antigo. Agora podia entender o que acontecia na ilha. Todos estavam la para terminar / pagar o carma. E eu tinha que sofrer pelo que meu antepassado fez. Também tinha que libertar as duas almas que habitava o estranho quarto da minha casa. Elas com certeza eram as mesmas pessoas que meu antepassado matou. Com o meu arrependimento e todo o meu sofrimento... Agora, os dois fantasmas que estão livres. Eu também estaria liberto do meu carma. Estava pronto para voltar do buraco negro e entrar no outro túnel!
Quando voltei, entrei no túnel da esquerda. A mesma coisa me aconteceu. Cheguei na hora de assinar o contrato de compra e venda da casa da ilha. Não assinei o contrato. Uma nuvem de fumaça cobriu tudo e eu já estava em casa com minha família. A antiga casa na cidade grande. Minha família não lembrava de nada que havia acontecido na ilha. Para eles, a ilha não existiu. Havia finalmente me livrado do meu carma. Decidimos morar numa pequena cidade do interior onde já morava alguns parentes.


Ilhas e muralhas da vida.

Escrito por Helio mar Melo

1 comentários:

  1. Só posso dizer. PARBENS! Voce continua escrever cada dia com mais inspiração e emoção.Adoro ler o que vc escreve. Um abraço bem apertado. Heudes.

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